Revisão Científica — Oncologia
Bebidas açucaradas e câncer gástrico: o que mostrou o estudo?
Um estudo prospectivo de coorte publicado em 2026 encontrou uma associação entre o consumo elevado de bebidas adoçadas com açúcar e a incidência de câncer gástrico.
Os participantes que consumiam mais de uma porção por dia apresentaram uma taxa de câncer gástrico aproximadamente 145% maior do que aqueles que não consumiam essas bebidas.
Esse resultado precisa ser interpretado com cautela:
- o estudo encontrou uma associação, não uma prova de causa e efeito;
- a categoria de bebidas incluía refrigerantes, bebidas esportivas, limonadas, ponches e suco 100% de fruta;
- o estudo não mostrou que uma pessoa que bebe refrigerante necessariamente desenvolverá câncer;
- bebidas artificialmente adoçadas não apresentaram associação estatisticamente significativa com câncer gástrico.
Estudo: Gweon TG, Ha J, Kim H, Du M, Song M, Chan AT. Association between sugar-sweetened and artificially sweetened beverage intake and gastric cancer incidence.
Periódico: Gastro Hep Advances
Ano: 2026
DOI: 10.1016/j.gastha.2026.101097
Status: Journal Pre-proof — artigo aceito, mas ainda aguardando a versão editorial definitiva.
Como o estudo foi feito?
Trata-se de um estudo prospectivo de coorte, também chamado de estudo de acompanhamento.
Os pesquisadores acompanharam pessoas que não tinham câncer gástrico no início da pesquisa. Ao longo dos anos, observaram quem desenvolveu a doença e compararam os resultados de acordo com o consumo de bebidas.
Esse tipo de estudo ajuda a identificar possíveis relações entre hábitos e doenças. Porém, sozinho, não consegue provar que determinado hábito causou diretamente uma doença.
Os pesquisadores utilizaram dados de duas grandes coortes realizadas nos Estados Unidos:
- Nurses’ Health Study (NHS)
- Health Professionals Follow-up Study (HPFS)
Participaram 112.284 pessoas:
- 68.311 mulheres;
- 42.973 homens.
O período de acompanhamento ocorreu entre 1986 e 2021, totalizando aproximadamente 35 anos de observação. Como os participantes foram acompanhados por períodos diferentes, o tempo acumulado correspondeu a aproximadamente 3,2 milhões de pessoas-ano.
Durante esse período, foram identificados 278 casos de câncer gástrico.
“Pessoas-ano” é uma forma de somar o tempo de acompanhamento. Por exemplo, 10 pessoas acompanhadas durante 10 anos correspondem a 100 pessoas-ano.
Os participantes responderam periodicamente a questionários sobre sua alimentação. Eles informavam com que frequência consumiam determinados alimentos e bebidas.
As bebidas adoçadas com açúcar foram divididas em cinco grupos:
- nunca;
- 1 a 3 porções por mês;
- 1 a 3 porções por semana;
- 4 a 7 porções por semana;
- mais de 1 porção por dia.
Uma porção correspondia a aproximadamente 240 mL.
A categoria de bebidas adoçadas com açúcar incluía:
- refrigerantes e outras bebidas gaseificadas;
- ponches;
- limonadas;
- bebidas esportivas;
- suco 100% de fruta, de acordo com a classificação usada pelos autores.
Esse último ponto é importante: o estudo não avaliou apenas refrigerantes. Por isso, não é correto resumir o artigo dizendo simplesmente que “refrigerante causa câncer gástrico”.
As bebidas artificialmente adoçadas foram analisadas separadamente.
Quais foram os resultados?
Bebidas adoçadas com açúcar
O principal resultado apareceu entre as pessoas que consumiam mais de uma porção por dia.
Quando comparadas às pessoas que não consumiam bebidas adoçadas com açúcar, elas apresentaram:
HR 2,45 — IC95% 1,49–4,04
O que significa esse número?
HR é uma medida estatística que compara a ocorrência de uma doença entre dois grupos ao longo do tempo.
Um HR de 2,45 significa que, durante o acompanhamento, o grupo que consumia mais de uma porção por dia apresentou uma taxa de câncer gástrico aproximadamente 145% maior do que o grupo que não consumia essas bebidas.
A conta é:
2,45 − 1 = 1,45
Isso corresponde a um aumento relativo de 145%.
Esse resultado não significa:
- que 145% das pessoas desenvolveram câncer;
- que cada pessoa teve um aumento de 145 pontos percentuais no risco;
- que a bebida causou diretamente o câncer;
- que todas as pessoas passaram a ter exatamente 2,45 vezes mais risco.
O estudo apenas comparou a ocorrência da doença entre grupos com diferentes hábitos de consumo.
O intervalo de confiança foi de 1,49 a 4,04. Isso mostra que existe incerteza na estimativa. Com base nos dados, a associação poderia ser menor ou maior do que 2,45.
Também foi observada uma tendência: quanto maior o consumo, maior era a associação encontrada.
Para cada porção semanal adicional, o estudo encontrou:
HR 1,06 — IC95% 1,02–1,09
Isso corresponde a uma associação relativa de aproximadamente 6% para cada porção semanal adicional, dentro da análise realizada.
Não significa que uma pessoa que tome uma bebida a mais em determinada semana passe automaticamente a ter 6% de chance de desenvolver câncer. Trata-se de uma estimativa baseada na comparação dos padrões de consumo observados na população estudada.
Resultados em mulheres e homens
Entre as mulheres que consumiam mais de uma porção por dia:
HR 3,04 — IC95% 1,46–6,33
Isso correspondeu a uma associação relativa aproximadamente 204% maior em comparação com as mulheres que não consumiam essas bebidas.
Entre os homens:
HR 1,99 — IC95% 1,00–3,93
Isso correspondeu a uma associação relativa aproximadamente 99% maior.
Esses números parecem diferentes, mas os intervalos de confiança são amplos. Portanto, não é possível afirmar com segurança que a associação tenha sido maior nas mulheres.
Quando há poucos casos em cada grupo, os resultados ficam mais incertos.
Bebidas artificialmente adoçadas
Para as bebidas artificialmente adoçadas, o estudo não encontrou uma associação estatisticamente significativa com câncer gástrico.
No grupo de maior consumo, o resultado foi:
HR 1,14 — IC95% 0,75–1,74
Como o intervalo de confiança inclui o número 1, o resultado não demonstra um aumento estatisticamente significativo na ocorrência de câncer gástrico.
Isso significa que, nesta análise:
- não foi encontrada uma associação convincente;
- não foi demonstrado efeito protetor;
- não foi provado que essas bebidas sejam seguras em todos os aspectos;
- apenas não apareceu uma relação estatisticamente clara com câncer gástrico.
O estudo provou que bebidas açucaradas causam câncer?
Não.
O estudo encontrou uma associação entre maior consumo de bebidas adoçadas com açúcar e maior ocorrência de câncer gástrico.
Associação significa que duas coisas apareceram relacionadas nos dados. Causalidade significa que uma coisa provocou a outra.
Para afirmar causa e efeito com mais segurança, seria necessário observar resultados semelhantes em vários estudos, com diferentes populações e métodos de pesquisa.
Mesmo com ajustes estatísticos, as pessoas que consomem mais bebidas açucaradas podem ser diferentes das demais em vários aspectos, como:
- alimentação geral;
- peso corporal;
- consumo de alimentos ultraprocessados;
- acesso a serviços de saúde;
- frequência de exames;
- histórico familiar;
- infecção por Helicobacter pylori;
- uso de medicamentos;
- condições econômicas e sociais.
Os pesquisadores tentaram considerar vários desses fatores. Porém, nenhum estudo observacional consegue eliminar completamente todas as diferenças entre as pessoas.
A frase correta é:
O maior consumo de bebidas adoçadas com açúcar esteve associado a uma maior ocorrência de câncer gástrico nesta população estudada.
A frase que o estudo não permite afirmar é:
Bebidas açucaradas causam câncer gástrico.
O papel do
Helicobacter pylori
O Helicobacter pylori é uma bactéria que pode causar problemas no estômago e é um importante fator de risco para câncer gástrico.
Os pesquisadores verificaram a presença de sinais da bactéria em apenas uma parte dos participantes.
Nesse grupo menor, o consumo de bebidas adoçadas com açúcar não esteve associado à infecção por H. pylori.
Porém, essa informação não estava disponível para todos os participantes. Essa é uma limitação importante, porque os pesquisadores não conseguiram considerar a presença da bactéria com o mesmo nível de detalhe em toda a população estudada.
Quais são as principais limitações?
1. O estudo não foi um experimento
Os pesquisadores apenas acompanharam as pessoas e compararam seus hábitos. Eles não decidiram quem deveria consumir bebidas açucaradas e quem não deveria.
Por isso, não é possível separar completamente o efeito das bebidas de todas as outras diferenças entre os participantes.
2. Foram identificados 278 casos de câncer gástrico
O número total de participantes foi grande, mas o número de casos de câncer foi relativamente pequeno.
Quando os pesquisadores dividem as pessoas por consumo, sexo e outras características, cada grupo fica com menos casos. Isso aumenta a incerteza dos resultados.
3. O controle do
H. pylori
foi incompleto
Como a informação sobre a bactéria estava disponível apenas para parte dos participantes, ainda pode haver influência desse fator nos resultados.
4. Algumas informações importantes eram limitadas
Os autores mencionam limitações relacionadas a:
- local do câncer dentro do estômago;
- histórico familiar de câncer gástrico;
- realização anterior de endoscopia digestiva alta.
Essas informações poderiam ajudar a entender melhor os resultados.
5. A população estudada não representa necessariamente todas as pessoas
Os participantes eram profissionais de saúde dos Estados Unidos e, em sua maioria, brancos.
Por isso, os resultados podem não se aplicar da mesma forma a:
- crianças;
- adolescentes;
- pessoas de outros países;
- grupos étnicos diferentes;
- pessoas com hábitos alimentares muito diferentes;
- populações com maior presença de H. pylori.
6. A categoria de bebidas era ampla
O grupo de bebidas adoçadas com açúcar incluía vários produtos e também suco 100% de fruta.
Assim, não é possível saber se a associação estaria relacionada especificamente a:
- refrigerantes;
- bebidas esportivas;
- bebidas de frutas;
- sucos;
- açúcar líquido em geral;
- ou ao conjunto de hábitos alimentares das pessoas que consumiam essas bebidas.
Transparência científica
Houve conflito de interesse?
Sim. Um dos autores declarou relações profissionais e financeiras.
Andrew T. Chan informou:
- atuação como consultor da Pfizer Inc.;
- atuação como consultor da Boehringer Ingelheim;
- recebimento de apoio de pesquisa da Freenome Holdings, fora do trabalho publicado.
Os demais autores declararam não possuir conflitos de interesse.
Isso não prova que o resultado esteja errado ou que o estudo tenha sido manipulado. Também não torna automaticamente o estudo inválido.
Mas é uma informação importante para o leitor, porque relações financeiras devem ser consideradas na avaliação crítica de uma pesquisa.
Neste caso, os conflitos declarados não parecem estar diretamente relacionados à venda de bebidas açucaradas. Ainda assim, devem ser informados porque fazem parte da declaração oficial dos autores.
O que poderia explicar essa associação?
Os autores mencionam algumas possibilidades:
- ganho de peso;
- resistência à insulina;
- alterações hormonais;
- inflamação;
- danos ao DNA;
- mudanças nas bactérias do intestino.
Essas são hipóteses. O estudo não comprovou que qualquer uma delas tenha causado o resultado.
Os autores também afirmam que são necessários novos estudos para confirmar a associação e entender melhor os possíveis mecanismos.
Minha leitura clínica
Como interpretar o resultado?
O resultado é chamativo, mas não definitivo.
A manchete “aumento de 145%” pode assustar. Uma pessoa pode imaginar que beber uma lata de refrigerante transforma imediatamente alguém saudável em uma pessoa com grande chance de desenvolver câncer. O estudo não mostrou isso.
A forma mais fiel de apresentar o resultado é:
No grupo que consumia mais de uma porção diária de bebidas classificadas como adoçadas com açúcar, houve uma taxa de câncer gástrico 145% maior do que no grupo que não consumia essas bebidas.
Isso é relevante, mas não é o mesmo que provar causa e efeito.
Também é importante não chamar toda a exposição de “refrigerante”, porque os pesquisadores incluíram vários tipos de bebidas e até suco 100% de fruta.
A interpretação mais equilibrada é:
- o resultado merece atenção;
- a associação foi forte o suficiente para justificar novas pesquisas;
- o tipo de estudo não permite afirmar causalidade;
- o número de casos não foi muito grande;
- o controle do H. pylori foi incompleto;
- a população estudada era específica;
- um dos autores declarou conflitos de interesse;
- o resultado não deve ser usado para calcular o risco individual de alguém.
Ao mesmo tempo, reduzir o consumo frequente de bebidas açucaradas continua sendo uma escolha razoável por vários outros motivos, como evitar excesso de calorias, ganho de peso e piora da qualidade da alimentação.
Em resumo:
O estudo acendeu uma luz amarela, não uma sirene. Ele sugere que o consumo elevado de bebidas adoçadas com açúcar pode estar relacionado ao câncer gástrico, mas ainda não prova que essas bebidas sejam a causa. A manchete dos 145% chama atenção, mas é preciso considerar os detalhes da metodologia.
Checagem Milena
Fake ou não fake?
| Afirmação | Checagem — o estudo mostrou |
|---|---|
| Fake ou, no mínimo, exagerada.“Beber refrigerante causa câncer gástrico.” | O estudo não avaliou apenas refrigerantes e não provou que essas bebidas causam câncer. |
| Não é fake.“Pessoas que consumiam mais de uma porção diária de bebidas adoçadas com açúcar apresentaram uma taxa de câncer gástrico 145% maior do que as pessoas que não consumiam essas bebidas.” | Esse foi o principal resultado estatístico do estudo, representado por HR 2,45. |
| Fake.“O risco absoluto de câncer aumentou 145 pontos percentuais.” | O aumento de 145% foi relativo. Isso não significa que o risco absoluto tenha aumentado 145 pontos percentuais. |
| Fake para este estudo.“Bebidas artificialmente adoçadas aumentaram significativamente o risco de câncer gástrico.” | O resultado não foi estatisticamente significativo. |
| Fake.“O estudo prova que bebidas açucaradas causam câncer gástrico.” | O estudo encontrou uma associação, não uma prova de causa e efeito. |
O que esse estudo muda na prática?
Para uma pessoa específica, o estudo não permite calcular exatamente o risco de câncer gástrico com base na quantidade de bebidas que ela consome.
Também não permite afirmar que alguém que bebe ocasionalmente terá câncer.
O que o estudo mostra é que, nessa população, o consumo elevado esteve associado a uma maior ocorrência da doença.
A conclusão prática mais equilibrada é:
- não há motivo para pânico;
- também não é correto ignorar o resultado;
- reduzir o consumo frequente de bebidas açucaradas continua sendo uma escolha razoável;
- o estudo não substitui consultas, exames ou acompanhamento médico;
- pessoas com sintomas persistentes devem procurar atendimento, independentemente do consumo de bebidas.
O trabalho acrescenta uma hipótese importante à pesquisa científica, mas ainda precisa ser confirmado por outros estudos, em populações diferentes e com melhor controle de fatores como H. pylori.
Transparência científica
Conflitos de interesse
Andrew T. Chan declarou atuação como consultor da Pfizer Inc. e da Boehringer Ingelheim e recebimento de apoio de pesquisa da Freenome Holdings fora do trabalho submetido.
Os demais autores declararam não possuir conflitos de interesse.